30 novembro 2004

Dois meses de festa

Jorge Sampaio decidiu - tentando fazer as pazes com o seu eleitorado sociológico - está decidido.
Nunca o Partido Socialista teve condições tão favoráveis para obter uma maioria absoluta. Uma vitória igual à de António Guterres em 1999 não será uma vitória para José Sócrates.
Veremos se PSD e CDS vão a eleições coligados.
Nos próximos dois meses, Portugal vai assistir a uma das campanhas eleitorais mais violentas de sempre da III República. LR

Esclarecimento

Alguns amigos meus d' "O Acidental" ficaram chateados por eu ter classificado, de forma genérica, o seu blogue de "direita radical".
As minhas desculpas.
Radical é o post "Depois queixem-se" de Paulo Pinto Mascarenhas. Procurar outros culpados pelos erros do Governo, que não o próprio primeiro-ministro ou os restantes governantes, é sintoma de radicalismo. Queixas da agressividade da comunicação social são sintomas de autismo. A argumentação utilizada por PPM tem alguma semelhança com "O Barnabé".
Responsabilizar outros, que não o próprio primeiro-ministro ou os restantes governantes, pela queda do Governo é a mesma coisa que dizer que Paulo Portas ajudou António Guterres a chegar a primeiro-ministro. LR

29 novembro 2004

Uma novela dispensável

A esquerda radical já se conscencializou que Jorge Sampaio não lhes vai fazer a vontade e dissolver a Assembleia da República. A direita radical, deixando-se contagiar pelo histerismo demissionário do BE e do PCP, já começa à procura de culpados.

Mas o que raio aconteceu para tanto barulho? O ministro do Desporto demitiu-se alegando falta de lealdade de Santana Lopes e acusando o primeiro-ministro de ter faltado à verdade. Porquê?
Em primeiro lugar, Lopes nunca chamou Chaves para nenhuma tarefa de coordenação política. Mas se é assim, porque razão Henrique Chaves não saíu na remodelação? Porque lhe garantiram que a sua saída "poderia redundar numa instabilidade interpretável como um irregular funcionamento das instituições", além de que a remodelação só teria sido decidida por Santana Lopes em virtude da pressão de Sampaio para demitir Gomes da Silva. Ora, descobriu Chaves quatro dias depois de ter tomado posse, estas duas explicações eram falsas. Daí a falta de lealdade.

Ou seja, Henrique Chaves foi enganado.

Isso é motivo para que o Presidente da República dissolva a Assembleia da República? Estará em causa o "normal funcionamento das instituições democráticas" que levou Jorge Sampaio a dar posse ao actual Governo? Não.

É certo que este já é o "quinquagésimo sétimo caso" do Executivo de Lopes. É certo que a instabilidade governativa deve-se, em grande medida, à actuação do próprio primeiro-ministro. É certo que Henrique Chaves é (era) próximo de Santana e as suas acusações são graves e produzem um dano político significativo a Lopes. Mas isso significa que Santana Lopes não tem condições para governar? Não. Até ver.

A resposta seria outra caso a coligação governamental estivesse em causa. Nesse cenário, náo haveria outra solução senão a dissolução.

António Guterres foi alvo de duras críticas de Manuel Maria Carrilho quando este se demitiu de ministro da Cultura. Carrilho, como diz o povo, chamou todos os nomes a Guterres. Numa célebre entrevista ao "Público", Carrilho, essa personagem extravagante da política portuguesa, afirmou taxativamente que Guterres não tinha condições para ser primeiro-ministro.

Poder-se-á dizer que os dois casos não são comparáveis, porque Guterres tinha a legitimidade do voto popular. Mas o governo de Santana tem a legitmidade constitucional que lhe foi transmitida quando Jorge Sampaio convidou o PSD a formar o XVI Governo Constitucional em coligação com o CDS.

O Presidente da República é que deveria evitar mais 48 horas de telenovela. Ao não deixar clara a sua posição, de forma a deixar Santana Lopes sob pressão, Sampaio agrava ainda mais o clima de instabilidade. Será que vamos assistir a um remake de Julho? Esperemos que não. LR

Ninguém disse nada ao Zé Luís?

Enquanto em Portugal Henrique Chaves já tinha enviado à Agência Lusa um comunicado em que chamava mentiroso e traidor a Santana Lopes e anunciava que um ministro esteve para ser demitido por Santana Lopes, José Luís Arnaut - "o outro ministro" - estava concentrado na política internacional.
Representando o PSD, Arnaut assistiu ontem à consagração de Nicolas Sarkozy como líder do União para um Movimento Popular e afirmou: "Venho dar-lhe um abraço a ele (Sarkozy) e à mulher Cécile", a quem, segundo a Lusa, reconhece grande papel na assistência ao marido, de quem é assessora de gabinete. O ainda ministro das Cidades elogiou o "voluntarismo" e a "persistência política invulgar", conjungada com um "grande sentido de responsabilidade", do arqui-inimigo de Jacques Chirac, Presidente da República francesa. Arnaut vê como "natural" a ascensão de Sarkozy, considerando "bom para a França e para a Europa que haja partidos fortes, pró-europeus".
Dito de outra forma, Arnaut vê como "natural" a guerra entre o Presidente da República (PR)(Chirac) e o presidente do partido (Sarkozy) que apoia o PR. O facto de tal situação "natural" provocar um aumento da instabilidade governativa da República francesa não o preocupa minimamente.
Em nome da coerência, Pedro Santana Lopes não deveria demitir Arnaut, mas sim nomeá-lo ministro dos Negócios Estrangeiros. Se Bush exporta a democracia, Lopes podia exportar a instabilidade com o seguinte lema: "Como dar cabo de um Governo em menos de 4 meses". LR



A alternativa ainda não chegou

O Governo está em pleno processo de implosão. A demissão de Henrique Chaves limitou-se a acelerar o desmoronamento do Executivo lopista. Santana Lopes bem pode queixar-se da comunicação social e de Cavaco Silva – a quem chamou ontem de “traidor” – que o seu maior inimigo é ele próprio. O seu “political killer instinct” pouco espaço deixa à oposição para inovar na crítica.
E aqui reside a segunda parte da questão. O que o País necessita é de um Governo socialista governado por José Sócrates? O PS está preparado para governar?
Sinceramente, não sei.
Com pouco mais de dois meses como líder, José Sócrates tem feito uma oposição discreta, suave e na qual o próprio secretário-geral do PS aparece pouco. A táctica de resguardo e a recusa em cavalgar as diferentes ondas mediáticas perante os sucessivos casos da governação santanista é, de forma geral, correcta. Ontem, Sócrates voltou a estar bem ao não ir atrás do histerismo demissionário do BE e do PCP.
Contudo, nalguns casos particulares, o comportamento do PS só é compreensível à luz dos compromissos com o Bloco Central dos interesses que nos governa.
Com a situação política a degradar-se de dia para dia, José Sócrates não pode demorar muito mais tempo a apresentar políticas alternativas que sejam sustentadas por caras novas.
A mudança só faz sentido se tiver em conta o futuro e não o passado. Defender uma espécie de guterrismo reciclado não chega para chegar ao poder. É preciso muito mais do que os “Estados Gerais – parte II” ou “Recordar John Kennedy em Lisboa”. LR

"Mas porque é que o Zé Manel se foi embora, Senhor?"

28 novembro 2004

Um Governo no divã

O ministro do Desporto, ex-ministro-adjunto, resolveu sair do Governo acusando um amigo seu de tudo: mentiras, deslealdades, descoordenações na liderança da equipa.

As acusações são graves. Tão graves que deviam ter sido mais detalhadas. Ou guardadas para sempre no silêncio que é próprio da verdadeira amizade.

Hoje mesmo, o primeiro-ministro disse ao país que o seu Governo nasceu numa incumbadora. Hoje, apenas quatro meses depois, o mesmo Governo saiu da incubadora para se remeter ao divâ. Porque só mesmo no psiquiatra se podem atingir as verdadeiras razões de tanto desgoverno.

Da democracia partidária

Escreve o meu amigo M.S., no seu corajoso Mau Tempo, que o PCP não tolera a democracia interna.

Errado, por defeito. Tu sabes, eu sei, tu sabes que eu sei, que nenhum partido político, como nenhum clube de futebol (por cá, mas não só) é verdadeiramente democrático. Isso é assim, como também é verdade que sem eles (sem os partidos) não haveria democracia. Por cá, mas não só.

É um paradoxo, neste caso absulutamente central no sistema que foi tão bem classificado por Churchill. Lembras-te?

Abraços.
É bom estar de volta.

27 novembro 2004

Aos meus amigos...

...uma boa nova:
após uma semana difícil consegui, finalmente, instalar internet em casa.

Hoje, a esta hora, começa uma nova era. Profissional e bloguítica (há um espaço com este nome, não há?). Novas responsabilidades, mais empenhamento, maior atenção e ponderação.

Abraços para todos (mesmo para os críticos). Contactamos amanhã.



26 novembro 2004

O Natal chegou mais cedo para Sócrates

O Natal, para além da dimensão religiosa, tem uma dimensão materialista. Caracteriza-se pelo facto de recebermos presentes sem nada termos feito para os merecer.

O DN de hoje anuncia a primeira projecção de maioria absoluta do PS.

Para Sócrates isto é o Natal em Novembro.

Os Portugueses estão a dar-lhe um presente sem ele ter feito nada, ainda, para o receber.

Esperemos que os Portugueses não sejam o Pai Natal ou o menino Jesus e necessitem de mais algumas justificações do que a bondade da época, para pôr presentes no sapatinho esquerdo do país.

Tudo de bom

25 novembro 2004

E tudo o vento levou…

A democracia não é um sistema perfeito. Até as pessoas mais bem intencionadas ficam deslumbradas com o poder. É o caso de Paulo Pinto Mascarenhas (PPM) e de José Bourbon Ribeiro (JBR).
A propósito de uma crítica moderada de Pedro Mexia ao CDS/PP de Paulo Portas, PPM e JBR, respectivamente assessor do ministro de Estado e chefe de gabinete do ministro de Estado, resolveram importar hábitos de outras paragens: atacar o crítico e não os argumentos de quem critica. Um comportamento estalinista, portanto.
PPM considera que Paulo Portas não fez nada de mal. Que ingénuo!
JBR não usa paninhos quentes e classifica Mexia como um velho rabugento que não tem lealdade orgânica. “Lealdade orgânica?!!!!!! Nem o Barnabé Daniel Oliveira se lembraria de melhor…
PPM foi jornalista do Independente durante, salvo erro, mais de 10 anos. JBR trabalhou na mesma redacção durante muito menos tempo. Ambos defenderam e praticaram um jornalismo agressivo de contra-poder. Hoje queixam-se do mesmo tipo de jornalismo – porquê, Senhor!!!!!! - que Paulo Portas lhes incutiu no sangue. Surprise, suprise, surprise! Só um comentário: Deus é justo.

Mas Pedro Mexia tem razão. O Paulo Portas político não tem nada a ver com o Paulo Portas jornalista. Mudou a cenografia e substituiu as convicções de outrora.
Portas jornalista era conservador nos valores e liberal no juízo de comportamentos sociais. Paulo Portas político é dogmático nos valores e moralista no juízo de comportamentos sociais. Por isso tem a bandeira da criminalização do aborto junto ao seu coração de actor.
Portas jornalista era profundamente anti-federalista. Portas político fez uma pirueta para entrar para o “arco governativo”, dando de seguida uma cambalhota para se manter no poder. Na semana passada chegou ao desplante de afirmar que o Tratado Constitucional não traz nada de novo. É “Constitucional”, não é? Sobrepõe-se à Constituição, não é? Ora aí está uma novidade. Mas há mais. É só ler o texto.

No actual Governo, dos ministros nomeados pelo CDS/PP, apenas Paulo Portas se destaca com o bom trabalho que tem vindo a fazer no Ministério da Defesa. Dos outros, pouco resta. Até Bagão Félix está em risco de perder a credibilidade que acumulou como ministro do Trabalho. Luís Nobre Guedes começou bem com o caso GALP/Matosinhos, mas ainda é cedo para avaliações, tantos são os interesses poderosos instalados no seu sector. Telmo Correia está desaparecido e só retive uma vaga aposta em campos de golfe para combater a sazonalidade do Algarve…
Em 2006 ou mais cedo, será o CDS/PP que estará em causa. Porque Portas político terá sempre safa. LR

23 novembro 2004

Um elogio ao P(aulo) P(ortas)

A personagem Paulo Portas é deveras intrigante. Não é que eu goste particularmente dele – num votei no sujeito e acredito nunca o fazer –, mas a figura tem méritos e qualidades que se situam acima da mediania da distinta classe política nacional.

Vem isto a propósito da entrevista do actual ministro à revista Sábado – um abraço para o Nuno Saraiva, um grande sportinguista, e outro para o Vítor Matos –, em que revelou mais uma vez toda a dimensão da personagem que criou. Paulo Portas não é Paulo Portas, é a criação de uma figura paradoxal. Um homem que se diz monárquico e conservador, com uma indumentária polida e pensada ao pormenor, mas solteiro e bom rapaz.

Ele próprio reconhece esta “dupla personalidade”, quando concorda com a análise do seu amigo Miguel Esteves Cardoso sobre a dissonância entre a figura no privado e a imagem pública da mesma.

Desta forma, não posso fazer uma avaliação do verdadeiro Paulo Portas porque não o conheço. Mas o julgamento do político é possível pelos seus resultados. Afinal é o que interessa e o resto é paisagem.

Portas fundou O Independente que foi uma pedrada no charco do politicamente correcto da altura e que marcou uma geração. Além disto, foi um projecto político de sucesso no combate ao cavaquismo – o notável professor que o diga.

Depois construiu e destruiu um figurante político denominado Manuel Monteiro. De seguida, pegou no CDS e aniquilou-o para fundar o “seu” PP. E o PP é mesmo dele e só existe por ele e para ele e, provavelmente, acabará sem ele. PP não significa Partido Popular, mas sim Paulo Portas.

A personagem já foi dada como morta e enterrada várias vezes –, por exemplo, no âmbito do caso Moderna ou após as últimas autárquicas – e, qual Fénix, renasceu sempre para dar dores de cabeça a muita gente. Afirmou que chegaria ao poder e muitos riram-se. Agora aturam-no na pasta da Defesa.

E a seguir? Não sei porque não tenho os poderes do oráculo. Contudo, há um erro que não cometo: subestimar a personagem política Paulo Portas.

Abraços

P.S. – Num país em que, infelizmente, não há o hábito de fazer biografias políticas, eu gostaria de fazer a do PP, particular e político.

22 novembro 2004

Com uma pergunta destas como é que os Federalistas não hão-de andar exultantes

Se o Presidente da República nada tiver a dizer nos próximos 8 dias a primeira batalha da Guerra da Constituição será ganha pelos partidários do "Sim à Constituição".

O
texto da pergunta a efectuar no referendo, resultante do acordo entre PS e PSD, é perfeitamente incompreensível e parece mais um título do jornal "A Capital" nesta sua fase "Osoriana"(A página inteira de hoje é de morte...e não é humor negro) do que uma questão simples, directa, concisa e objectiva, como se impõe!!!!

Das 2, uma:
1. Acolhem a proposta de Jorge Miranda (RTP, Telejornal, 6ªfeira passada) da existência de uma única pergunta no texto com uma formulação canónica, ou
2. Aproveitam para colocar na mesma pergunta todas aquelas questões que andam há séculos para ser aprovadas e ninguém tem coragem para aprovar

Por nós, e para o debate, sugerimos que a formulação a constar seja a seguinte:

"Concorda com a Carta de Direitos Fundamentais, a regra das votações por maioria qualificada e o novo quadro institucional da União Europeia, nos termos constantes da Constituição para a Europa, com a criação do Concelho de Canas de Senhorim, com o Perdão Fiscal das Dívidas de todos os Clubes de Futebol, com a concessão incondicional e definitiva dos hospitais-empresa a entidades privadas, com a aclamação e entronização de D. Afonso como Rei de Portugal, com a expulsão do José Peseiro do Sporting, com a inclusão nos menus escolares de todas as escolas do primeiro ciclo a norte do Guadiana de um prato semanal de morcela de arroz com Ananás dos Açores?"

NB.: O tamanho do corpo de letra da pergunta é federalista e é, obviamente, propositado!!!


Tudo de Bom



Soares

Eu gosto de Mário Soares. Não só por ter lutado em 75 contra os comunistas e os barnabés como também pelo simples facto de ser um bom burguês português. O facto de ter liderado o PS até 1986 impediu que os esquerdistas do Verão Quente tenham alcançado mais cedo o poder interno socialista. Com Soares, o PS foi um rival, mas nunca um inimigo do centro-direita sociológico.
Mas como bom burguês, Mário Soares também tem direito ao disparate. Afirmar que se não fosse a entrada para a União Europeia, já teriamos tido um golpe militar, é uma patetice. Este tipo de argumentação para defender o “sim” no referendo não passa de demagogia barata.
Mas demonstra que os federalistas já começam a ter receio do referendo. Por esta blogosfera fora, federalistas assumidos já pensam em votar “não” depois de conhecerem a enigmática pergunta acordada pelo Bloco Central. A chuva de críticas à questão que o Tribunal Constitcional terá que apreciar solidificou as minhas dúvidas quanto à realização de um referendo. Não acredito que o Bloco Central aceite uma consulta popular, se a vitória garantida do “sim” português correr o risco de se transformar numa vitória tangencial. Vamos ver, David. LR

O primeiro dia de Barroso

Para a posteridade, o dia de hoje vai ficar marcado nas agendas da história como o primeiro de Durão Barroso à frente dos destinos da Comissão Europeia. A sua agenda está longe de ser fácil: tem a reforma da Agenda de Lisboa, na qual se inclui a reformulação do Pacto de Estabilidade e Crescimento; o processo negocial no novo Quadro Comunitário de Apoio; as relações com os Estados Unidos e o combate ao terrorismo e, por último mas não menos importante, o processo da Constituição Europeia.

Eu pretendo dar a minha ajuda para dificultar a vida de Durão Barroso votando no “não” no próximo referendo sobre a Constituição Europeia.

A Mafalda deu cabo do nosso primeiro exclusivo

Pronto. A Mafalda Mendes de Almeida prometeu e cumpriu. O sketch de Santanek e Fiona Portas foi para o ar ontem à noite na íntegra e sem interrupções técnicas pelo meio. E o nosso primeiro exclusivo lá foi à vida.
Será que alguém avisa o dr. Nuno que já não é necessário chamar a PJ para fechar as portas d'O Insubmisso?
A recuperação da credibilidade do "Telejornal" já é uma tarefa que lhe dá muito trabalho. LR

Fim-de-semana de empatas II

Benfica e Sporting vivem situações bem mais complicadas. Os encarnados continuam com problemas financeiros e têm um plantel desequilibrado, particularmente no meio campo, mas tem um grande treinador. Giovanni Trapattoni é um grande senhor do futebol europeu, com um currículo que fala por si. Tem apenas a infelicidade de treinar um clube que não está à sua altura.
Deixei para último o meu Sporting porque é o caso mais complicado. Um passivo de mais de 400 milhões de euros, uma equipa com graves lacunas – faltam laterais, extremos, um guarda-redes de nível europeu e um “matador” – e um treinador próprio do Nacional da Madeira. José Peseiro já provou que não tem unhas para tocar aquela guitarra, particularmente ao nível psicológico. Quem ouviu as declarações de Peseiro e Cajuda no final do jogo em Aveiro, não notou diferenças entre os dois. Esse é o problema. José Peseiro tem a atitude própria de um clube que joga para não descer de divisão e falta-lhe dimensão para levar uma equipa ao título.

Por tudo isto, o Porto, mesmo uns furos abaixo do que é habitual, vai, muito provavelmente, limpar o campeonato. Qual é a lição? O futebol é muito mais do que refilar com o sistema. Há muito a aprender ao nível da gestão, sobretudo dos recursos humanos. E ninguém se lembrou disto para os lados de Alvalade.

Duas notas finais. Uma positiva para Carlos Brito, técnico do Rio Ave. Tem uma carreira muito promissora pela frente. Uma negativa para a arbitragem no estádio do Dragão, mais uma a prejudicar o espectáculo. Mas voltarei a este assunto em outra ocasião.

Abraços

Fim-de-semana de empatas I

  1. O Sporting e o Benfica perderam este fim-de-semana a oportunidade de devolverem maior emotividade à Liga, aproveitando a derrota do FCP, no Dragão, perante o Boavista, em mais um jogo do campeonato com os senhores do apito em grande evidência.
    Os empates de Sporting e Benfica – pior este último, uma vez que jogou em casa – dão uma falsa ideia de maior competitividade no futebol português. Ao contrário do que poderá parecer, não há uma aproximação do nível médio das várias equipas, mas, pura e simplesmente, crises nos ditos grandes. Benfica, Sporting e Porto já viveram melhores dias e o futebol que praticam está aí para o provar.
  2. Ainda assim, estas crises não são homogéneas, têm graus e abrangências diferentes. E o Porto, mais uma vez graças ao trabalho do seu Presidente, tem a posição menos má. As contas estão equilibradas com a venda de Ricardo Carvalho, Deco e companhia, jogadores fundamentais nos últimos sucessos do clube, mas que foram substituídos por outros com nível suficiente para garantirem vitórias no campeonato nacional, casos de Pepe, Diego ou Luís Fabiano.
    Desta forma, os problemas dos azuis e brancos residem apenas no treinador e em expectativas demasiado elevadas. Ou seja, o clube continua órfão de José Mourinho e vai continuar assim por muito tempo, porque o actual treinador do Chelsea é de outra galáxia. E Fernandez não tem metade das qualidades de Mourinho. Por outro lado, os adeptos habituaram-se a um patamar de vitórias insustentável para qualquer clube português. Nenhuma equipa portuguesa tem possibilidades financeiras e organizativas para lutar pela vitória nas provas da UEFA. O que aconteceu ao FCP nos últimos dois anos foi um grande feito, que dificilmente se repetirá nas próximas décadas.

19 novembro 2004

Um elogio merecido ao referendo

Eu sei que ninguém gosta, sei que ninguém percebe, sei até que todos acham ridícula. Eu, por mim, estou feliz com a aprovação de uma pergunta para que se possa votar, em referendo, a Constituição Europeia. Mais, para que eu possa votar "sim" nesse referendo.

Vejam bem que até fiquei feliz com a aparente boa vontade dos partidos políticos neste processo. PSD, PS e CDS concordaram numa pergunta; procuraram que esta não fosse (pelo menos claramente) inconstitucional; e ainda - desculpem lá os eurocépticos - deram um sinal de que se empenharão na luta pelo "sim". Quando vejo uma pergunta que começa com a carta dos direitos fundamentais, só posso pensar que a pergunta foi feita para um "sim" - mesmo que um "sim" politicamente correcto (o que me agrada menos, como calculam).

Dito isto, e para ser honesto, uma referência ao que me desagrada neste assunto: desagrada-me a democracia referendária - ainda que esta seja importante, admito, para que os velhos do restelo deixem de incomodar o país com questões polémicas;
desagrada-me que a pergunta não se perceba, sendo que a culpa é apenas, e só, de quem faz revisões constitucionais sem sentido, ignorando o que o tem;
desagrada-me também que todos digam que a pergunta é importantíssima, quando todos sabem que é a nossa integração europeia que vai a votos e que terá se ser legitimada. Andam há anos a queixar-se disso, agora nada a fazer.

A polémica, esta e não as inúteis, é bem recebida no Insubmisso.



Resposta à arrogância

Os esquerdistas portugueses costumam ter um problema comum: a arrogância. Pensam também que ao nascerem lhes foi revelado o único caminho possível para a verdade absoluta. Por isso mesmo é que têm problemas com quem pensa de forma diferente. A democracia, muitas vezes, é um conceito que lhes é estranho.

O António Mira é um amigo e um académico respeitado, que tem todo o nosso apoio numa altura em que foi insultado por escrever a sua opinião com base em informação válida que foi publicada noutros órgãos de comunicação social.

O JPH irritou-se. Costuma acontecer com frequência. É bom que isso aconteça. É sinal que está vivo e participativo na vida da nossa comunidade.
O problema é que resolveu partir para o insulto fácil e extemporâneo, sem pensar antes de escrever.
No teu jornal tens uma secção chamada "Pessoas" - salvo erro - em que é abordada quase em exclusivo a vida privada de gente mais e menos célebre. Isso sim é mais um sucedâneo do "Dantas". Uma só pergunta: será que o João Pedro alguma vez escreveu ou contribuiu algumas linhas nessa secção?

Desiludam-se, portanto, aqueles que pensam que o David Dinis - é com "s" não com "z" - e o Luís Rosa praticam ou pactuam com actos de censura. Esses actos ficam com quem os pratica.

Luís Rosa, David Dinis e Bruno Proença