13 dezembro 2004

Um sismo

Parece que Lisboa sentiu hoje um pequeno sismo.
Vi isto na televisão, num rodapé que dizia "última hora", com imagens do primeiro-ministro a falar em Belém.
Confesso que não liguei nenhuma. Só depois percebi não era uma metáfora. É a força do hábito.



Meus amigos...

Eu, numa atitude de total honestidade e humildade, devo uma justificação ao país.
Passaram 11 dias, praticamente sem dizer palavra. E hoje, que a digo, não sei bem como me justificar.

Digo-vos apenas isto: face à instabilidade reinante, à falta de credibilidade e à sucessão de acontecimentos (que me dispenso de enumerar, pois o país bem sabe a que me refiro), só posso defender a demissão imediata do treinador do Sporting Clube de Portugal.

Tenho dito, meus amigos.

Aquele abraço e até já.

12 dezembro 2004


Depois de quase uma semana sem post's, o Insubmisso não vale mais do que esta velha Ford Transit

07 dezembro 2004

Então e não estávamos?

A minha mulher lembrou-me do seguinte - que resolvi partilhar convosco:


Constituição da República Portuguesa
Artigo 172.º
(Dissolução)
1. A Assembleia da República não pode ser dissolvida nos seis meses posteriores à sua eleição, no último semestre do mandato do Presidente da República ou durante a vigência do estado de sítio ou do estado de emergência.

Então e não estávamos em estado de sítio?


06 dezembro 2004

Depressão à vista

Quanto mais fala, mais demonstra o seu autismo. Depois das eleições, Pedro Santana Lopes arrisca-se a passar uns tempos na clínica onde Elsa Raposo curou a sua última depressão. LR

05 dezembro 2004

Latin’ América

Lá pelo início dos idos anos 80, apareceu uma música com este nome. Foi um verdadeiro hit, o Latin’ America. E fazia sentido: Portugal vivia na ressaca de uma revolução, ainda sob variados comandos militares. A música, essa música, apontava precisamente o espírito que se vivia na época. Era a América Latina, no seu melhor. E muito, muito mesmo, o triste país ainda teve que passar.

Tudo isto, porém, era tido como normal. Daí para cá, Portugal cresceu, normalizou a sua vida. Manteve muitos defeitos, é certo, mas juntou-se à Europa no espaço e no espírito. Até aqui.

Hoje, o país recupera, tristemente, o que de pior a música nos recorda. Ouvimos, décadas depois, o mesmo Latin’ América. E, surpresa das surpresas, parecemos de volta ao mesmo espaço, ao mesmo tempo. Numa frase apenas: quem olhe para Portugal de fora não percebe. Acho mesmo que quem olhe Portugal de dentro também não. Eu não.

Raison d’état

Há pouco mais de quatro meses, o Sr. Presidente da República tomou a decisão mais difícil da sua vida. Demorou a fazê-lo, pensou antes de o fazer. Mas tomou a decisão e fundamentou-a devidamente.

Mesmo para quem não gostou da decisão, e muitos não gostaram, o Sr. Presidente foi um homem de Estado. Teve a autoridade de quem fez o que a lei dizia. Assim deve ser.

Depois disso, uma sucessão de acontecimentos. Todos sabemos quais, mas nenhum de nós sabe verdadeiramente quais. Eu, por mim, gostava de saber. Gostava que o Sr. Presidente, homem de Estado há quatro meses, voltasse a mostrar que fez o que a lei dizia. A lei, digo eu. Porque a razão de Estado é isso mesmo: aplicar a lei, de forma fundamentada, desagrade a quem desagradar.

Ao Sr. Presidente, seja ele qual for, cabe apenas uma tarefa: ficar nas páginas da história pelas melhores razões. E não abrir precedentes perigosos para uma democracia que ainda é nova demais para arriscar a vida. Para já, aguardamos serenamente a explicação que é devida. Sem pressões, mas com justificada expectativa.



Raison de vivre

O centro desta equação, no entanto, está em S. Bento. Está por justificar como se consegue perder tanto tempo - quatro meses - com tantos erros. É que quatro meses num país como Portugal é tempo demasiado.

Hoje, na AR, o mesmo primeiro-ministro resolveu iniciar a sua campanha eleitoral. Procurou explicar porque o Presidente está errado, lançou as primeiras críticas ao seu verdadeiro adversário. Não seria o local certo, nem o melhor timming, mas o discurso foi indiscutivelmente o melhor que se viu neste tempo.

O difícil será, para este primeiro-ministro, convencer o país que não foi ele a governar. Foi o outro, o dos quatro meses perdidos. O difícil será convencer o país que ele, o novo, terá a autoridade que não teve e dará a estabilidade que não soube dar.

Serão dois meses, pouco mais. Muito pouco, mesmo para quem volta finalmente ao seu campo. Pouco tempo, especialmente para quem faz da carreira política a sua 'raison de vivre'.

02 dezembro 2004

Foi só um pesadelo

Eis um take da Lusa de hoje, às 13h14m:

"Santana reúne-se com Sampaio esta tarde
Lisboa, 02 Dez (Lusa) - O primeiro-ministro, Santana Lopes, reúne-se hoje com o Presidente da República, no Palácio de Belém, no habitual encontro semanal de trabalho, disse fonte oficial.
A reunião ocorrerá depois da cerimónia de posse dos secretários de Estado da Juventude e do Desporto, marcada para as 13:00".

O surrealismo assentou arraiais na política portuguesa. LR

30 novembro 2004

Dois meses de festa

Jorge Sampaio decidiu - tentando fazer as pazes com o seu eleitorado sociológico - está decidido.
Nunca o Partido Socialista teve condições tão favoráveis para obter uma maioria absoluta. Uma vitória igual à de António Guterres em 1999 não será uma vitória para José Sócrates.
Veremos se PSD e CDS vão a eleições coligados.
Nos próximos dois meses, Portugal vai assistir a uma das campanhas eleitorais mais violentas de sempre da III República. LR

Esclarecimento

Alguns amigos meus d' "O Acidental" ficaram chateados por eu ter classificado, de forma genérica, o seu blogue de "direita radical".
As minhas desculpas.
Radical é o post "Depois queixem-se" de Paulo Pinto Mascarenhas. Procurar outros culpados pelos erros do Governo, que não o próprio primeiro-ministro ou os restantes governantes, é sintoma de radicalismo. Queixas da agressividade da comunicação social são sintomas de autismo. A argumentação utilizada por PPM tem alguma semelhança com "O Barnabé".
Responsabilizar outros, que não o próprio primeiro-ministro ou os restantes governantes, pela queda do Governo é a mesma coisa que dizer que Paulo Portas ajudou António Guterres a chegar a primeiro-ministro. LR

29 novembro 2004

Uma novela dispensável

A esquerda radical já se conscencializou que Jorge Sampaio não lhes vai fazer a vontade e dissolver a Assembleia da República. A direita radical, deixando-se contagiar pelo histerismo demissionário do BE e do PCP, já começa à procura de culpados.

Mas o que raio aconteceu para tanto barulho? O ministro do Desporto demitiu-se alegando falta de lealdade de Santana Lopes e acusando o primeiro-ministro de ter faltado à verdade. Porquê?
Em primeiro lugar, Lopes nunca chamou Chaves para nenhuma tarefa de coordenação política. Mas se é assim, porque razão Henrique Chaves não saíu na remodelação? Porque lhe garantiram que a sua saída "poderia redundar numa instabilidade interpretável como um irregular funcionamento das instituições", além de que a remodelação só teria sido decidida por Santana Lopes em virtude da pressão de Sampaio para demitir Gomes da Silva. Ora, descobriu Chaves quatro dias depois de ter tomado posse, estas duas explicações eram falsas. Daí a falta de lealdade.

Ou seja, Henrique Chaves foi enganado.

Isso é motivo para que o Presidente da República dissolva a Assembleia da República? Estará em causa o "normal funcionamento das instituições democráticas" que levou Jorge Sampaio a dar posse ao actual Governo? Não.

É certo que este já é o "quinquagésimo sétimo caso" do Executivo de Lopes. É certo que a instabilidade governativa deve-se, em grande medida, à actuação do próprio primeiro-ministro. É certo que Henrique Chaves é (era) próximo de Santana e as suas acusações são graves e produzem um dano político significativo a Lopes. Mas isso significa que Santana Lopes não tem condições para governar? Não. Até ver.

A resposta seria outra caso a coligação governamental estivesse em causa. Nesse cenário, náo haveria outra solução senão a dissolução.

António Guterres foi alvo de duras críticas de Manuel Maria Carrilho quando este se demitiu de ministro da Cultura. Carrilho, como diz o povo, chamou todos os nomes a Guterres. Numa célebre entrevista ao "Público", Carrilho, essa personagem extravagante da política portuguesa, afirmou taxativamente que Guterres não tinha condições para ser primeiro-ministro.

Poder-se-á dizer que os dois casos não são comparáveis, porque Guterres tinha a legitimidade do voto popular. Mas o governo de Santana tem a legitmidade constitucional que lhe foi transmitida quando Jorge Sampaio convidou o PSD a formar o XVI Governo Constitucional em coligação com o CDS.

O Presidente da República é que deveria evitar mais 48 horas de telenovela. Ao não deixar clara a sua posição, de forma a deixar Santana Lopes sob pressão, Sampaio agrava ainda mais o clima de instabilidade. Será que vamos assistir a um remake de Julho? Esperemos que não. LR

Ninguém disse nada ao Zé Luís?

Enquanto em Portugal Henrique Chaves já tinha enviado à Agência Lusa um comunicado em que chamava mentiroso e traidor a Santana Lopes e anunciava que um ministro esteve para ser demitido por Santana Lopes, José Luís Arnaut - "o outro ministro" - estava concentrado na política internacional.
Representando o PSD, Arnaut assistiu ontem à consagração de Nicolas Sarkozy como líder do União para um Movimento Popular e afirmou: "Venho dar-lhe um abraço a ele (Sarkozy) e à mulher Cécile", a quem, segundo a Lusa, reconhece grande papel na assistência ao marido, de quem é assessora de gabinete. O ainda ministro das Cidades elogiou o "voluntarismo" e a "persistência política invulgar", conjungada com um "grande sentido de responsabilidade", do arqui-inimigo de Jacques Chirac, Presidente da República francesa. Arnaut vê como "natural" a ascensão de Sarkozy, considerando "bom para a França e para a Europa que haja partidos fortes, pró-europeus".
Dito de outra forma, Arnaut vê como "natural" a guerra entre o Presidente da República (PR)(Chirac) e o presidente do partido (Sarkozy) que apoia o PR. O facto de tal situação "natural" provocar um aumento da instabilidade governativa da República francesa não o preocupa minimamente.
Em nome da coerência, Pedro Santana Lopes não deveria demitir Arnaut, mas sim nomeá-lo ministro dos Negócios Estrangeiros. Se Bush exporta a democracia, Lopes podia exportar a instabilidade com o seguinte lema: "Como dar cabo de um Governo em menos de 4 meses". LR



A alternativa ainda não chegou

O Governo está em pleno processo de implosão. A demissão de Henrique Chaves limitou-se a acelerar o desmoronamento do Executivo lopista. Santana Lopes bem pode queixar-se da comunicação social e de Cavaco Silva – a quem chamou ontem de “traidor” – que o seu maior inimigo é ele próprio. O seu “political killer instinct” pouco espaço deixa à oposição para inovar na crítica.
E aqui reside a segunda parte da questão. O que o País necessita é de um Governo socialista governado por José Sócrates? O PS está preparado para governar?
Sinceramente, não sei.
Com pouco mais de dois meses como líder, José Sócrates tem feito uma oposição discreta, suave e na qual o próprio secretário-geral do PS aparece pouco. A táctica de resguardo e a recusa em cavalgar as diferentes ondas mediáticas perante os sucessivos casos da governação santanista é, de forma geral, correcta. Ontem, Sócrates voltou a estar bem ao não ir atrás do histerismo demissionário do BE e do PCP.
Contudo, nalguns casos particulares, o comportamento do PS só é compreensível à luz dos compromissos com o Bloco Central dos interesses que nos governa.
Com a situação política a degradar-se de dia para dia, José Sócrates não pode demorar muito mais tempo a apresentar políticas alternativas que sejam sustentadas por caras novas.
A mudança só faz sentido se tiver em conta o futuro e não o passado. Defender uma espécie de guterrismo reciclado não chega para chegar ao poder. É preciso muito mais do que os “Estados Gerais – parte II” ou “Recordar John Kennedy em Lisboa”. LR

"Mas porque é que o Zé Manel se foi embora, Senhor?"

28 novembro 2004

Um Governo no divã

O ministro do Desporto, ex-ministro-adjunto, resolveu sair do Governo acusando um amigo seu de tudo: mentiras, deslealdades, descoordenações na liderança da equipa.

As acusações são graves. Tão graves que deviam ter sido mais detalhadas. Ou guardadas para sempre no silêncio que é próprio da verdadeira amizade.

Hoje mesmo, o primeiro-ministro disse ao país que o seu Governo nasceu numa incumbadora. Hoje, apenas quatro meses depois, o mesmo Governo saiu da incubadora para se remeter ao divâ. Porque só mesmo no psiquiatra se podem atingir as verdadeiras razões de tanto desgoverno.

Da democracia partidária

Escreve o meu amigo M.S., no seu corajoso Mau Tempo, que o PCP não tolera a democracia interna.

Errado, por defeito. Tu sabes, eu sei, tu sabes que eu sei, que nenhum partido político, como nenhum clube de futebol (por cá, mas não só) é verdadeiramente democrático. Isso é assim, como também é verdade que sem eles (sem os partidos) não haveria democracia. Por cá, mas não só.

É um paradoxo, neste caso absulutamente central no sistema que foi tão bem classificado por Churchill. Lembras-te?

Abraços.
É bom estar de volta.

27 novembro 2004

Aos meus amigos...

...uma boa nova:
após uma semana difícil consegui, finalmente, instalar internet em casa.

Hoje, a esta hora, começa uma nova era. Profissional e bloguítica (há um espaço com este nome, não há?). Novas responsabilidades, mais empenhamento, maior atenção e ponderação.

Abraços para todos (mesmo para os críticos). Contactamos amanhã.



26 novembro 2004

O Natal chegou mais cedo para Sócrates

O Natal, para além da dimensão religiosa, tem uma dimensão materialista. Caracteriza-se pelo facto de recebermos presentes sem nada termos feito para os merecer.

O DN de hoje anuncia a primeira projecção de maioria absoluta do PS.

Para Sócrates isto é o Natal em Novembro.

Os Portugueses estão a dar-lhe um presente sem ele ter feito nada, ainda, para o receber.

Esperemos que os Portugueses não sejam o Pai Natal ou o menino Jesus e necessitem de mais algumas justificações do que a bondade da época, para pôr presentes no sapatinho esquerdo do país.

Tudo de bom

25 novembro 2004

E tudo o vento levou…

A democracia não é um sistema perfeito. Até as pessoas mais bem intencionadas ficam deslumbradas com o poder. É o caso de Paulo Pinto Mascarenhas (PPM) e de José Bourbon Ribeiro (JBR).
A propósito de uma crítica moderada de Pedro Mexia ao CDS/PP de Paulo Portas, PPM e JBR, respectivamente assessor do ministro de Estado e chefe de gabinete do ministro de Estado, resolveram importar hábitos de outras paragens: atacar o crítico e não os argumentos de quem critica. Um comportamento estalinista, portanto.
PPM considera que Paulo Portas não fez nada de mal. Que ingénuo!
JBR não usa paninhos quentes e classifica Mexia como um velho rabugento que não tem lealdade orgânica. “Lealdade orgânica?!!!!!! Nem o Barnabé Daniel Oliveira se lembraria de melhor…
PPM foi jornalista do Independente durante, salvo erro, mais de 10 anos. JBR trabalhou na mesma redacção durante muito menos tempo. Ambos defenderam e praticaram um jornalismo agressivo de contra-poder. Hoje queixam-se do mesmo tipo de jornalismo – porquê, Senhor!!!!!! - que Paulo Portas lhes incutiu no sangue. Surprise, suprise, surprise! Só um comentário: Deus é justo.

Mas Pedro Mexia tem razão. O Paulo Portas político não tem nada a ver com o Paulo Portas jornalista. Mudou a cenografia e substituiu as convicções de outrora.
Portas jornalista era conservador nos valores e liberal no juízo de comportamentos sociais. Paulo Portas político é dogmático nos valores e moralista no juízo de comportamentos sociais. Por isso tem a bandeira da criminalização do aborto junto ao seu coração de actor.
Portas jornalista era profundamente anti-federalista. Portas político fez uma pirueta para entrar para o “arco governativo”, dando de seguida uma cambalhota para se manter no poder. Na semana passada chegou ao desplante de afirmar que o Tratado Constitucional não traz nada de novo. É “Constitucional”, não é? Sobrepõe-se à Constituição, não é? Ora aí está uma novidade. Mas há mais. É só ler o texto.

No actual Governo, dos ministros nomeados pelo CDS/PP, apenas Paulo Portas se destaca com o bom trabalho que tem vindo a fazer no Ministério da Defesa. Dos outros, pouco resta. Até Bagão Félix está em risco de perder a credibilidade que acumulou como ministro do Trabalho. Luís Nobre Guedes começou bem com o caso GALP/Matosinhos, mas ainda é cedo para avaliações, tantos são os interesses poderosos instalados no seu sector. Telmo Correia está desaparecido e só retive uma vaga aposta em campos de golfe para combater a sazonalidade do Algarve…
Em 2006 ou mais cedo, será o CDS/PP que estará em causa. Porque Portas político terá sempre safa. LR