31 outubro 2005

Sobre o referendo ao aborto

1ºCongratulo-me com o facto de o Tribunal Constitucional não ter cedido a argumentos fáceis.
2º Votarei contra a alteração do actual quadro legal existente sobre a matéria, em sede de referendo, quando a isso fôr chamado
3º Lá estarei como voluntário nos movimentos pela vida nos períodos antecedentes ao referendo
4º Existem argumentos científicos, sociais, morais, políticos, entre outros, a que posso recorrer para sustentar a minha posição
5º O Primeiro-Ministro não deve ser saudado pelo facto de ter cumprido a sua palavra; isso é o que os homens de bem devem fazer numa sociedade civilizada. O que ele fez deve ser considerado corrente e banal.

28 outubro 2005

A democracia vista da esquerda

O Tribunal Constitucional diz que seria ilegal fazer um referendo este ano. O Bloco de Esquerda, que sempre apoiou o referendo, diz agora que vai obrigar o PS a votar na AR um diploma que muda a lei SEM esse referendo. É a democracia vista da extrema-esquerda: serve quando nos dá razão, é para deitar fora quando não. Rima e é verdade.

Um pouco de bom-senso

O primeiro-ministro decidiu bem: vai fazer o referendo ao aborto no final de 2006. Sócrates mantém um compromisso, permite uma discussão séria sobre um assunto sério, não passa por cima da Constituição para impôr a sua vontade e a da sua maioria.

Um pouco de bom-senso sabe bem. E merece ser elogiado - mesmo que, até lá chegar, José Sócrates tenha cometido alguns erros dispensáveis.

Assim sendo, lá estarei no final de 2006 para depositar um voto.

Consciência

Fica, não fica, fica, não fica.

Depois de umas horas a matutar, resolvi não chatear a f., apesar das irritações dela - próximas da destilação, aliás - dirigidas ao prof. Cavaco. Aliás, ao que parece, a f. já teve irritações a mais nos últimos dias. Não precisa de levar com um dinis que nem conhece, não é? Pronto f., descanse. E não se incomode tanto com tantas coisas, que é para a minha consciência dormir descansada.

* este post, como se lê (percebe) em cima, é a substituição de um outro que aqui estava. Ficou assim, que ficou melhor.

Bonecas Russas: a minha revolta contra um crítico de cinema

Fui dos primeiros estudantes Erasmus deste país. Como a maior parte dos estudantes Erasmus por essa Europa fora, esse foi o melhor ano da minha vida. Tal como qualquer estudante Erasmus voltar a Portugal foi o maior choque que tive na minha vida. Por uma razão muito simples: eu tinha mudado, mas nada mais tinha.

Daí que ver surgir "A residência espanhola" passados alguns anos dessa experiência, foi uma revisita, e foi delicioso. Não era um grande filme que tratasse de temas universais, mas cumpria aquilo que se espera de um filme com intenções comerciais "mais pas trop": aliviar tensões, despertar emoções, fazer sonhar, levar-nos a pensar, fazer acreditar que há uma coisa que é uma causa e que se chama Europa e que só sobreviverá se, como na "Residência..." de Barcelona (sempre Barcelona!!!), da diferença surgir a união e o respeito pelas individualidades.

As acusações de simplismo confrangedor à sequela, "Bonecas Russas" são desajustadas. É certo que não é uma grande película. Pobreza argumentativa, sobreutilização dos clichés plásticos do novo cinema francês, actores com interpretações medianas, construção de personagens com pouca densidade, ligeireza dos desenlaces. Mas o que é verdade é que o bom do Cédric consegue novamente tocar na "mouche" do universo " erasmusiano: o difícil retorno, a insatisfação com as soluções tradicionais, a busca de caminho no caos pessoal, e, sobretudo, o amor aos 30 anos.

Como estou nessa casa etária, achei piada ao percurso do bom do Xavier. E ainda mais à sua conclusão.

Quando chegamos a esta idade, o futuro está por construir e há condições para ter sonhos até aqui nem sequer imagináveis, mas já temos algumas certezas quanto às nossas emoções: quando as coisas "batem" é porque há razões muito fortes para isso acontecer e porque todas as nossas experiências elevam a fasquia para um patamar superior, embora comecemos a perceber que a perfeição resulta das imperfeições e da beleza das partilharmos.

RTP, orgão oficial de propaganda do governo?????

Comecei o dia, não com Mokambo, mas com a RTP. Notícias às 8:09. Para saber o que o tempo me reserva já que, afortunado sou, moro em Lisboa e o trânsito passa-me ao lado. De repente, quando pensei ir assistir à apresentação das primeiras páginas dos jornais (como é hábito) aparece Alberto Costa em entrevista exclusiva ao canal 1 da RTP.

O que é que teria levado esta criatura, agora que a greve já passou à história, a dar uma entrevista, carregado de medos, branco e trémulo? Pensei que, sendo um homem que se afirma sem medos e receios, vinha afrontar novamente a população judicial, que de forma "aveztrustica" persiste em querer ser diferente.

Mas não, a razão da entrevista acabou por se perceber no fim qual era...é que Alberto Costa acaba por utilizar o seu espaço de antena de ministro para argumentar contra a primeira página de hoje do Independente em que é acusado de ter pressionado um juíz.

Espero que de hoje em diante todos, MAS RIGOROSAMENTE TODOS, aqueles que sejam alvo de notícias, digamos, incómodas na Comunicação Social, tenham direito a semelhante tratamento.

Caso contrário acabámos de assistir a uma violenta manipulação dos serviços públicos de radiodifusão que raia a propaganda, que nem Morais Sarmento, essa pérola, conseguiu ousar (mas do outro lado também estava um excelente jornalista como Director de Informação).

By the way...se a ideia da RTP e de Costa era desvalorizar o Independente e desmotivar a compra, enganaram-se...conseguiram, com a importância que deram ao assunto, despertar atenções faixas alargadas da população para um jornal moribundo gerido de forma, no mínimo, facciosa, por uma jornalista curiosa

27 outubro 2005

Nicolau Santos e a dualidade da economia

O Nicolau deu uma entrevista a um programa da RTP em que, relativamente à crise sentida em Portugal, refere que a sua análise aponta para a existência de uma dualidade no nosso desenvolvimento económico.

Por um lado tudo aquilo que depende ou se relaciona estreitamente com o Estado vive, de facto, em crise; por outro encontramos a emergir no nosso país uma nova geração de empreendedores e de empreendorismo que prospera e concorre seguindo o novo paradigma de competitividade global.

Análise, com a qual concordo, e a reter em futuras reflexões.

A febre das sondagens começou e dizem-nos o óbvio

Ele é Correio da Manhã, ele é DN. Começaram a surgir números. Como era de esperar Sócrates desilude os portugueses e Cavaco vence as eleições. So what?

O que eu gostava no campo das sondagens, era algo mais exploratório: o porquê destas opiniões?

Isto porque de uma perspectiva moral eu consideraria muito positiva esta desilusão com Sócrates se ela estivesse ancorada num verdadeiro afrontamento dos problemas que Portugal enfrenta. E aí eu saudaria Sócrates.

O mesmo raciocínio para as presidenciais. Cavaco ganha porquê? Porque tem as melhores propostas e o melhor posicionamento ou porque todos os outros não as têm?

O que era interessante é que os leitores de jornais e espectadores de televisão pudessem ter à sua disposição informação política em profundidade que o ajudasse a reflectir, e já agora que essa informação fosse tratada de forma inteligente e consumível. (e isto não é um desafio impossível).

A qualidade da democracia sairia melhorada pelo incremento de qualidade do jornalismo político e por uma visão de longo prazo dos actores políticos... mesmo considerando que Portugal tem as taxas de leitura mais reduzidas da UE.

Esta dominação do positivismo e do efémero na análise do político redunda num simplismo redutor que alimenta por epifenómenos o adiamento da resolução dos problemas do sistema político e do modo de vida da nossa comunidade política.

Porque os pássaros não se podem ferir

"Numa ânsia de ter alguma coisa,
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar;
E a minh'alma perdida não repousa.

Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à força de sonhar...

Mas a vitória fulva esvai-se logo...
E cinzas, cinzas só, em vez de togo...
- Onde existo que não existo mim ?"
........................................
........................................
Um cemitério falso sem ossadas,
Noites d'amor sem bocas esmagadas
-Tudo outro espasmo que princípio ou fim....

Escavação, Mário de Sá-Carneiro

E tão pouco faltaria para eu existir...

26 outubro 2005

Soares no "Público"

A foto de Mário Soares na primeira página do imparcial "Público" da sua edição de hoje é maldosa, embora seja um retrato fiel das propostas do candidato. Por tudo o que fez pela democracia portuguesa e por tudo o que não fez, merecia outro tratamento.

Soares e as piadolas

Alguém me explica o que é "messianismo revanchista"?

Soares e as gaffes

A Comunicação Social de hoje trata de forma compreensiva a gaffe sobre o percurso legislativo da proposta de referendo sobre o aborto, cometida por Mário Soares ontem no Ritz.

Incompreensível a compreensão.

Saúdo o grande Proença

É com grande alegria que assinalo o regresso de Bruno Proença a este campo de escritos. Que a pena te seja leve e o dedo ligeiro.

Paulo Bento - Escolha a prazo?

Ainda é confidencial, mas revelaram-nos em rigoroso exclusivo que Soares Franco já iniciou as sondagens ao mercado para escolher o próximo treinador da equipa principal do SCP.

De acordo com as nossas fontes, a short list encontra-se reduzida a 3 nomes, embora, devido ao curriculum da personagem, Soares Franco já tenha feito a sua escolha.

Falamos de Vítor Hugo Cardinalli que estará em Lisboa a partir de Novembo. De acordo com a análise efectuada pela SAD leonina, o factor determinante para esta preferência por Vítor Hugo, reside no imaculado passado de treinador de leões (ferozes), com provas dadas e reconhecimento internacional.

Aparentemente apenas um detalhe separa o SCP desta escolha e da assinatura do respectivo contrato...é que Cardinalli só estará disponível a partir de 8 de Janeiro, altura em que termina a sua temporada em Lisboa, enquanto que a SAD receia que Paulo Bento não consiga chegar vivo até lá.

Gripe das Árvores - parte II

Houve comentários telefónicos, smsénicos, comments e contactos no messenger a propósito do post sobre a gripe das árvores. Um dos comments pronunciava-se com bastante oportunidade sobre a águia do SLB.

Para tranquilizar todos aqueles que de forma desinteressada perguntaram por "Vitória", esse grande mito benfiquista, posso apenas referir que, de acordo com informação veiculada ontem pela comunicação social, "Vitória" foi alvo de teste de despistagem. O resultado foi negativo. Abençoado despiste.

Dedicado ao pássaro ferido

“Na região de Chiang-Shih, no estado de Song, há lindas florestas de plátanos, amoreiras e ciprestes. Acontece que, quando atingem dois ou três palmos de altura, algumas dessas árvores são cortadas para servir de poleiros; das que medem quatro ou cinco palmos, há algumas que são cortadas para fazer estacas e, das que chegam aos sete e oito palmos, muitas são serradas para tábuas de caixões. Assim, nenhuma destas chegou ao termo natural da sua vida, nem pôde desfrutar, do alto do seu cume, a imagem do mundo para a qual tinha sido criada e, a meio do seu destino, caiu sob os golpes do machado. Este é o perigo de se ser útil...”

Ichonan- Tseu, in Alçada Baptista, O Riso de Deus

25 outubro 2005

Voto em branco nas presidenciais porque voto no futuro

O momento político nacional está quente e interessante, mas, para não variar, desfocado. As eleições presidenciais aproximam-se à velocidade do furacão Wilma e, como era de esperar, o nível da discussão começou a baixar, sobretudo nas apreciações vindas das candidaturas que antecipam derrotas e desilusões – ver artigo de hoje no DN do Medeiros Ferreira, apoiante de Mário Soares, sobre o percurso político de Cavaco Silva.

Mas o pior não é chafurdice na lama do baixo combate político. O problema é que a campanha para as presidenciais vai ser mais uma oportunidade perdida – pelo menos, é o que se começa a desenhar. Portugal vive uma crise grave: económica, social e política. Com uma única razão de fundo: a social-democracia e o modelo social europeu estão à beira do fim. Ou seja, as estruturas que suportam a vida dos portugueses e dos europeus estão a ser abaladas. E perante isto, o que estamos a fazer? Seguramo-nos com o cordel do passado para enfrentar o tsunami do futuro.

Portugal, tal como a Europa, deveria estar a discutir a mudança para o novo mundo, com menos Estado e mais iniciativa da sociedade privada. A questão passou novamente a ser o que posso fazer pela sociedade a que pertenço e não o que ela pode fazer por mim. E não é isto que está a acontecer, nem o que vai ocorrer com estes candidatos a Presidente da República. Todos eles nobres representantes do mundo velho. Foram eles, e bem na época, os principais obreiros do regime social e económico do país – apoiado num Estado generoso e interventivo.

Portanto, estes candidatos são um equívoco neste momento da história e a prova de que não há renovação política em Portugal. Assim, o melhor é olhar para o lado e votar em branco.

Back in colours

Com o patrocínio do Sport Lisboa e Benfica.

(as coisas que eu escrevo, Deus me perdoe).

24 outubro 2005

Fidel...Oh Fidel

Em entrevista a propósito da passagem do Wilma por Cuba, Fidel tratou de explicar que a forma como o povo cubano se comportou relativamente à desgraça alheia, não saqueando nenhuma loja ou habitação, explicavam por si só as diferenças entre o sistema americano e o socialismo cubano.

Nos EUA é a loucura irracional em que todos saqueiam tudo sem respeito; enquanto que em Cuba se viu uma resposta racional e humana.

3 pequeníssimos pormenores amigo Castro, tão mínimos que até tenho vergonha em os referir:
- em Cuba não há liberdade de imprensa e por tal mesmo que houvesse saques eles não seriam reportados
-em Cuba não há nada para saquear porque, digamos, o teu sistemazito não deixa muito às pessoas, a não ser que estejam no Partido
-em Cuba há mais população nos serviços secretos, guarda e polícia de ronda do que em todas as outras actividades, pelo que é difícil as pessoas poderem ter esses ataques de loucura...coisa que em Portugal antes do 25 de Abril, por comparação com o que se passou depois, também acontecia.

Desculpa lá incómodo dos reparos...e pronto já sei que não tenho visto no próximo ano para te visitar.

Eanes falou...mas continua a não sorrir

Não se pode dizer que seja um texto brilhante, nem é um apoio novo. Mas o artigo de Ramalho Eanes na p.2 do Expresso deste fim-de-semana salienta um aspecto importante que geralmente anda afastado das discussões sobre as instituições: é que o Estado resulta da vontade da sociedade civil...algo que a esquerda sistematicamente esquece e ignora quando persiste em admirar exemplos como os de Cuba