11 agosto 2006

A ditadura da ficção

(Escrevo a propósito do surpreendente evoluir do nosso opinómetro.)

A ameaça chegou pela imprensa: o democrata governo cubano promete multar todos os cidadãos apanhados a ver televisões estrangeiras por satélite, nomeadamente, os que assistem aos programas de "conteúdo destabilizador, intrometido e subversivo" que apelam a "actividades terroristas". A brincadeira custa aos endinheirados habitantes da ilha o equivalente a sete anos de ordenado.
Ao contrário do que o comum do mortal com uma réstia de bom-senso possa pensar, os programas não são emitidos pela Al Qaeda, o Hezbollah ou pelo governo iraniano. As emissões são feitas a partir de Miami, ex-libris da ditadura, dizem. Qualquer parecença com a realidade é pura ficção. Pior: é a ditadura da ficção.

07 agosto 2006

Que farei quando tudo arde?

Portugal está outra vez a arder. Nada de novo. O Ministério da Administração Interna empenhou-se em acções de campanha de sensibilização. "Em caso de incêndio, ligue 117 ou 112". Recebi um sms com essa recomendação. Julgo que toda a gente o recebeu. Este fim-de-semana, no norte, tentei ligar o 117 para dar conta de um fogo. Não consegui fazer a ligação. Fiz o que o MAI me mandou: liguei o 112. Resposta: "Ah, não pode ser para este número, tem que ligar para os bombeiros que é o 117". Há aqui qualquer coisa que não está a funcionar, diria...

06 agosto 2006

?

Enquanto esteve internado nos cuidados intensivos (2 dias) Fidel assinou dois comunicados. Primeiro a dar conta da passagem de testemunho "provisória" para o irmão, Raúl, depois para dizer que estava "animado". Seguiu-se o ministro da saúde que anunciou uma boa recuperação do presidente cubano e o vice-presidente que agora garante que Fidel regressa "dentro de algumas semanas". Sei que a medicina em Cuba é de ponta. Mas, ou descobriram a poção mágica do druida Panoramix, ou é a receita de sempre, especialidade das ditaduras: falo da propaganda, naturalmente.

05 agosto 2006

Cuba - parte !!

A propósito de um pseudopost meu sobre o que será Cuba quando o camarada Fidel morrer, surgiu um post do David – esse, sim, provocatório – que está a dar azo a um debate que já não é debate nem coisa nenhuma. É um conjunto de ataques sobre quem é mais de esquerda ou quem é mais de direita, sobre os falsos democratas da direita ou os relativistas-ortodoxos da esquerda, uma quantidade de caracteres que já está a resvalar para o tom displicente e quase agressivo.

Isto incomoda-me, desculpem lá. Sobretudo incomoda-me que vocês não aceitem as opiniões uns dos outros.
Incomoda-me que o David não admita que a Carla tenha dúvidas sobre a actual situação no Iraque (uma guerra desencadeada por causa de uns furos de petróleo e de uma indústria bélica que é preciso alimentar e que teve como desculpa deitar abaixo um ditador – valha-nos isso).
Incomoda-me que a Carla julgue a opinião do David para dizer que não recebe dele lições de democracia.
Incomoda-me que o António Mira se atire ao Rapaz Que Passou Por Aí, acusando-o de estar a fazer comentários sobre coisas “que não conhece”.
Incomoda-me que o Jolaze venha aconselhar o António Mira a ouvir e a ler mais um bocado e venha para aqui dizer que eu devo ser da Juventude Popular!!!
Incomoda-me que o António Mira entre numa guerra de orgulho por causa de erros ortográficos e (pior!) diga que já não tem idade para “fumar umas coisas à beira de um canal ali para os lados da Zambujeira”.
Por favor!!!

Vamos por partes.
Primeiro a minha orientação partidária para que fique tudo esclarecido e ninguém tenha dúvidas: sou swing vote! Voto em pessoas e não em partidos. Voto mais à esquerda, mas também voto à direita. Voto muitas vezes em branco.

Agora, Cuba. Só vou dizer o que vi.
Vi um cubano a queixar-se de que não há liberdade de imprensa em Cuba: “Aqui, temos três televisões: Fidel 1, Fidel 2, Fidel 3”.
Vi um cubano a dizer que Fidel era o maior.
Vi pobreza. Vi a casa do Reinaldo, que conheci na rua, com um boné do Che na cabeça, um charuto meio fumado meio por fumar e uma bebericalha qualquer a que ele chamou café, em que eu dei um trago curto de olhos fechados. Tinha uma filha mais nova que eu, linda, vaidosa até dizer chega, e com um verdadeiro cu de cubana. “O dinheiro que eu ganho é para os estudos dela”. A casa era um quarto, sem retrete, sem duche, com um fogão de dois bicos ao lado da cama.
Não vi lá, mas já vi em reportagens e documentários, um dos melhores serviços de saúde do Mundo (pelo menos nalgumas áreas – confesso que não sei em quais, mas julgo que a reabilitação fisioterapêutica é uma delas).
Vi um dos povos mais cultos do Mundo (“Ah! São de Portugal! A montanha mais alta é o Pico! Tem mais de dois mil metros! E o Rosa Coutinho? Já morreu?”).
Vi cubanos a “assaltarem-me” um saco de bonés, camisolas, medicamentos, champôs e sabonetes que eu tinha levado para dar.
Vi um carro da polícia a parar para fazer dispersar os cubanos que me “assaltavam”. Vi-me a mim a dizer à polícia: “Tranquilo, tranquilo”. Vi as coisas que tinha dentro do saco a desaparecerem num ápice.
Vi as comemorações do aniversário da JCP a serem suspensas por causa da morte do Papa.
Vi a Havana turística (impecável) e a outra Havana (decrépita).
Vi beijos e amassos e línguas e mãos e suor e saliva no Malecon.
Vi um cubano a correr atrás de mim para me entregar os óculos de sol de que me tinha esquecido numa banca de artesanato.
Vi uma cubanita com um turista europeu que teria seguramente mais de 50 anos. Aliás, vi várias.
Vi um cubano a dizer que, mal conseguisse, fugia de Cuba.
Vi um cubano a criticar os dissidentes.

Vi todos os cubanos felizes. Não há dinheiro, mas há sorrisos. E isso é inegável. Uma vontade de viver diferente da nossa.
Não há dinheiro, mas há sexo, há rum, há salsa.

Paguei sempre em pesos convertibles. Não sei o que vai ser Cuba pós-Fidel.

04 agosto 2006

Aos 35

Acabou o blog do Boucherie. Como prometido. Elogiei-o no início. Elogio-o no fim. Às vezes é preciso matar aquilo de que gostamos para que continuem a gostar de nós.

03 agosto 2006

Cuba libre

A propósito da provocação da Bárbara, aqui em baixo, leio um comentário que me deixa perplexo: "E o iraque? Ficou melhor sem o ditador?" É preciso lata. Gostava de perceber porque alguém pode, sequer, considerar, que uma ditadura pode ser melhor do que uma democracia. Pior ainda, dar a cara por tal disparate. Há gente a quem não vale a pena ensinar, diria o Vasco Pulido Valente.

Guerra justa

Vão dizer-me que é um teórico e eu responderei que é o melhor deles. Leiam, sff, o João Cardoso Rosas, aqui, a explicar porque esta guerra no Líbano é justa face às suas causas, embora não o seja sempre face à conduta.

02 agosto 2006

Cuba


Fidel Castro está doente.
O irmão assumiu o poder.

O que vai ser Cuba pós-Fidel?
Os cubanos são felizes?






Debate na caixa de comentários, para quem estiver interessado em mandar palpites.



foto: BB

O Provedor

Num país que pouco liga a instituições de recurso, o ofício de Nascimento Rodrigues sobre a polémica dos exames do 12º ano é um sinal importante. Contestando os argumentos do Governo, o Provedor não só mostra aos cidadãos que têm a quem recorrer, como lembra ao país que maioria absoluta não é sinónimo de poder absoluto. Para lá dos argumentos - sempre discutíveis, sempre necessários - é importante que o Governo não use a desculpa do costume nestas circunstâncias. É que ó tempo das "forças de bloqueio" já vai longe.

A prisão

A editora de política do Público, no último sábado, resolveu dedicar um editorial a criticar o Governo por nada fazer face à destruição de espaços que recordem os tempos de Salazar - "o fascismo", nas palavras escolhidas. No dia seguinte, Vasco Pulido Valente comentava o comentário assim: "Não vale a pena ensinar São José Almeida". Hoje, no mesmo jornal, o ministro da Justiça anuncia-se disposto a ceder o Aljube para albergar um museu da resistência. O ministro escolheu o Público, pois claro.

Ideólogo procura-se

“O que leva Ribeiro e Castro a pisar mais uma casca de banana?”, tem-me varrido, aqui e ali, o pensamento. Sim, talvez sejam “pérolas para porcos” os laivos de atenção dispendidos no enémiso deslize de Ribeiro e Castro, mas enfim....lá me debruço.
Manuel Monteiro não tem valor eleitoral, fundou um partido-triciclo-sem-rodas, saiu mal do CDS e pior ficou. Ribeiro e Castro procura um ideólogo? Alguém que o leve (?) a pensar política, intervenção assertiva, criação de agenda e conquista eleitoral? “Talvez seja, isso. Só pode mesmo ser isso, porque nem uma amizade bem sustentada justificaria uma aproximação destas..."
Bem, concluamos que sim.
- Caro Ribeiro e Castro escolheu o pior dos politólogos: Manuel Monteiro. Tem mais vícios que vicissitudes, ateia mais fogos que qualquer outro pirómano político da praça e na memória, até dos eleitores mais desatentos, permanecem apenas protestos e contra-protestos sem uma pífia de resultados. Olhe, vá pelo seu dedo. Vá às páginas amarelas...

P.S. É apenas uma ideia, sem querer com ela ser promovido a ideólogo, que penso poderá ajudá-lo. "Partido fundador da democracia portuguesa, de formação católica, com ebulições liberais e guerrilhas autonomizadas, em queda eleitoral e com bandeiras estropiadas, líder impopular, tantas tropas quanto dinheiro, procura ideólogo”. Se forem demasiados caracteres, recorra ao cartão que tem no bolso e que tanto chateia os funcionários do Caldas: o futuro usa visa. Quem o avisa...

01 agosto 2006

Talvez

Paulo Portas levou o PP ao poder. Ganhou e perdeu em sete anos de liderança, mas sobre o que não há dúvida é quanto ao embate que travou com Manuel Monteiro. Independentemente das "armas" erguidas no combate político, Portas venceu, Monteiro claudicou. Ponto.
O seu sucessor é puro "pasto" político. Pesado nas ideias, inútil no discurso, frágil na condução política. O que une Ribeiro e Castro e Manuel Monteiro? O "anti-portismo" conjuntural e de fundo, respectivamente?
É muito pouco para as baboseiras que o líder do PND nos presenteia hoje nas páginas dos jornais: [Paulo Portas] é um empecilho para entendimentos ou plataformas eleitorais à direita que sejam duradouros (...) com ele não se fala porque só pensa em benefício próprio, com Ribeiro e Castro já se pode falar". É de surdos, este diálogo de tão politicamente inútil. Mesmo o mais sagaz adversário do "portismo" tropeça na evidência de que goste-se ou não, Portas, o político, tem crédito à direita. Ribeiro e Castro e Manuel Monteiro também mas, talvez, junto dos amigos de Olivença. Talvez.

31 julho 2006

Como?

Como é que a comunidade internacional pode pôr fim a um conflito com que nunca soube lidar?

Como é que a comunidade internacional pode pôr fim a um conflito quando os seus próprios líderes estão a meses de sair do poder ou estão afundados nas sondagens?

Como é que a comunidade internacional pode pôr fim a um conflito quando não fala, diplomaticamente, a mesma língua?

O que os netos fazem a um homem

Primeiro, foi a PMA, agora a colecção Berardo. Cavaco, na presidência, raramente tem certezas e nunca deixa de ter dúvidas.

[Tinha decidido escrever o post mas, apenas, depois de uma terceira declaração de interesses do PR. Marcelo fez-me antecipá-lo.]

27 julho 2006

Cadê Lisboa? Cadê Lisboa?

Carmona Rodrigues anunciou 300 medidas para os primeiros 180 dias de mandato. Recordo-me das provedoras de bairro, de umas bombas de gasolina de bairro que fecharam, de um casino que foi inaugurado e pouco mais. Tomou posse em Outubro ou Novembro, pouco interessa, e desde aí? Caiu de quatro: com as dívidas, os assessores, a Infante Santo, o projecto de meio milhão de contos de Ghery que foi para o lixo, as guerras entre vereadores e a insegurança rodoviária na cidade. E o PS, cadê o PS? O Professor Carrilho, cadê o Professor Carrilho? Parece que escreveu um livro, dá umas conferências e umas faltas justificadas.

26 julho 2006

Assim mesmo

Acho que já tinha andado aqui, mas como nunca sei por onde é que ando nem o que é que ando a fazer, não chego a ter a certeza se já tinha andado aqui. Um insubmisso que cá veio levou-me aqui. A pôr nos favoritos.

Diálogos do trabalho em Portugal

Uma recém-mamã, com ar desesperado:

- Estou a trabalhar desde as oito e meia da manhã! Vocês nem imaginam como eu tenho as mamas!

Dá vontade de bocejar...

... diz o Pedro Correia, lembrando que todos os dirigentes políticos do momento são benfiquistas. É um sinal dos tempos, Pedro. Há dois anos, a cor era melhor, mas nem por isso deu resultados: Sampaio, Barroso (ou Santana, é à escolha), Ferro, Portas. Tudo de verde. Mas santos da casa não fazem milagres, não é?

25 julho 2006

O que explica por que a Itália ganhou o Mundial

a pior piada do dia [6]

porque é que os homens do mar se chamam marújos e os do ar não se chamam araújos?