10 março 2005

As Farpas I

Será que alguém dá a ler a José Sócrates este pequeno texto da autoria de Eça de Queiroz e de Ramalho Ortigão?

“(...) Ninguém se aproximava deles; causavam imensa impressão nos moços de fretes. Por fim, pouco a pouco, alguns jornalistas mais curiosos foram-se chegando e começaram a tocar-lhes com o dedo, a ver se eram de pau. Percebeu-se mesmo que falavam. Enfim os mais audaciosos fizeram-lhes perguntas.
- Senhores, disseram-lhes, espalhou-se por aí que vinham restaurar o país. Ora devem saber que um partido possui uma missão de reconstituição - deve ter um sistema, uma ideia, um princípio que domine toda a vida social, estado, moral, educação, trabalho, factos jurídicos, factos económicos, literatura, etc. Assim, por exemplo a questão religiosa é complicada, qual é o seu princípio para nesta questão?
- Economias! Disse com voz pessada o partido reformista.
Espanto geral.
- Bem! e em moral?
- Economias! bradou
- Viva! e em educação
- Economias! roncou.
- Safa! E nas questões de trabalho?
- Economias! mugiu
- Apre! E em questões de jusrisprudência?
- Economias! rugiu
- Santo Deus! E em questões de literatura, de arte?
- Economias! uivou

Estavam todos aterrados. Aquilo não dizia mais nada. Fizeram-se novas expectactivas. Perguntaram-lhe:
- Que horas são?
- Economias! roquejou
Todo o mundo tinha os cabelos em pé. Fez-se nova tentativa.
- De quem gosta mais, do papá ou da mamã?
- Economias! bravejou

Um suor frio humedecia todas as camisas. Examinaram-no de frente, de perfil, de três quartos. Perguntaram-lhe a tabuada, o catecismo:
-Economias! Respondia

Uma coisa tão inexplicável só podia ser um partido político. Era com efeito. Não tinha ideias, tinha aprendido aquela palavra, repetia-a sempre, a todo o propósito, maquinalmente. Era o papagaio do constitucionalismo.
Papagaio... quando está na oposição: então repete a sua palavra – economias! Sempre grulhando, gritando, casquejando, espanejando-se ao sol. Mas mal chega ao governo, emudece: faz-se sorumbático, grave, pesado, calado, mono, inútil: é a arara dos poderes públicos!”.

1 comentário:

Francisco Dos Santos disse...

E querer mudar isso é como querer mudar o clima.