15 novembro 2005

Actos de fé

A entrevista de Cavaco Silva, ao contrário do que se vai dizendo por aí, não foi patética, nem desonesta, nem arrogante. Não foi, simplesmente porque a entrevista... não foi. Cavaco Silva, ontem na TVI, não foi, nem sequer quis ser. Optou pelo silêncio, total, sem concessões. O resultado, óbvio, foram algumas contradições e outras tantas incoerências. Alguns exemplos:

1. Cavaco diz que é cedo para avaliar o Governo. Diz também que não pode avaliar o primeiro-ministro porque cabe a Sampaio, até Março, esse papel. Mas a verdade é que o próprio Cavaco já avaliou este mesmo Governo em algumas ocasiões. Fez isso quando Campos e Cunha saiu, criticando, e também quando Sócrates manteve a promessa de referendar o aborto, elogiando.

2. Cavaco diz, também, que quer remar ao lado do Governo em matérias decisivas para o país. Promete cooperação. Mas, depois, é-lhe perguntado se teria aceite remar ao lado de Guterres, que tanto criticou. E não responde. É uma incoerência, tão só custo de um silêncio forçado. Porque é óbvio que Cavaco não ficaria ao lado de Guterres, porque é óbvio que Cavaco só aceitará remar ao lado de Sócrates se - e apenas se - Sócrates quiser remar na mesma direcção que ele.
O Governo e o Presidente podem bem estar de acordo quanto aos objectivos. O problema será, como sempre foi, quando não estão de acordo quanto às políticas para os atingir. Mas isto Cavaco não disse e não dirá.

3. Já agora, os cartões vermelhos. Constança Cunha e Sá - uma vez mais no ponto certo - lembra o professor que foi ele próprio quem pediu um cartão vermelho a Guterres, nas autárquicas de 2001. Diz agora Cavaco que Guterres fez mal em sair. O mesmo Cavaco que alertou - e bem - para o descalabro para que Portugal caminhava sob a orientação do engenheiro.


Dito isto, o problema da entrevista de Cavaco é a evidência de que algo vai mal em terras de Portugal. O professor considera que a melhor maneira de vencer eleições é falar o menos possível - assim como Sócrates o achou e acabou por conseguir uma maioria absoluta. Percebo a tentação, mas não posso aceitar a tese: é que, assim sendo, as eleições em Portugal tornam-se um acto de fé.

Acreditamos, porque sim, que X é o candidato certo e que Y é o candidato errado. É um caminho errado da nossa democracia, não só porque não sabemos no que estamos a votar, mas também porque nos será impossível pedir contas a quem é eleito. É triste, mas as presidenciais estão transformadas nisto: meros actos de fé. Rezemos, então.

7 comentários:

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

A campanha de Cavaco é simples: a cada pergunta, Cavaco dá não-respostas, começando pelo bordão "eu acho que não devo...", porque um presidente não deve. Estamos a ver Cavaco, se fosse eleito, num cenário de Crise: Senhor Presidente, dissolve ou não dissolve? - O Presidente está acima da dissolução; Atentado bombista: Senhor Presidente, que vamos fazer? Um Presidente está acima da dissolução; Invasão do Paquistão: Senhor Presidente, Portugal vai mandar tropas ou não? - Um Presidente está acima das invasões; tornado, sismo, tsunami: que vamos fazer? - Um Presidente está acima das catástrofes! Queda de um meteorito, choque de planetas, desvio da órbita terrestre: um Presidente está acima dos astros! Já tínhamos percebido!
Miguel

Anónimo disse...

A campanha de Cavaco é simples: a cada pergunta, Cavaco dá não-respostas, começando pelo bordão "eu acho que não devo...", porque um presidente não deve. Estamos a ver Cavaco, se fosse eleito, num cenário de Crise: Senhor Presidente, dissolve ou não dissolve? - O Presidente está acima da dissolução; Atentado bombista: Senhor Presidente, que vamos fazer? Um Presidente está acima das bombas; Invasão do Paquistão: Senhor Presidente, Portugal vai mandar tropas ou não? - Um Presidente está acima das invasões; tornado, sismo, tsunami: que vamos fazer? - Um Presidente está acima das catástrofes! Queda de um meteorito, choque de planetas, desvio da órbita terrestre: um Presidente está acima dos astros! Já tínhamos percebido!
Miguel

Anónimo disse...

Cavaco, espabila.....TVI es de Prisa......

Zarco disse...

Vocês falam de barriga cheia. Se tivessem atentos à Madeira sabiam que o Alberto João Jardim PROIBIU todos os candidatos a Pr de Câmara de participar em debates. Resultado ninguém conhece as ideias ao o programa dos cadidatos do PSD, mas eles ganharam. Isto é uma ditadura detro de Portugal, que parece que niguém leva a sério.

Anónimo disse...

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MIGUEL disse...

"BEM-VINDO, MR. CHANCE": Este filme muito sugestivo aplica-se como uma luva a Cavaco Silva: um homem que não lia jornais, não lia livros, dizia coisas banais, tão banais que muitos julgavam estar a usar metáforas, chega a ponto de estar em vias de ser Presidente dos EUA, e só não chega lá, porque, surgindo do nada, desaparece, engolido pela bruma e paul, antes de que o desastre se consuma.